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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Moça



Teu corpo maduro 
Não aprovava o meu amor
A lei dos homens nos impedira
O que seria de mim?
Meu nome para eles tem maior valor

Moça, o que diriam?
Se em teu ventre ainda moço
Carregasse um filho meu
Aonde eu como referência servia
O amor de nada valia

Para proteger-te
Meu coração, hoje, se nega
Tu não entendes
Os escândalos em vosso nome
Não é o que nos resta

Da mocidade que carregas
Já basta a velhice que levo
A lei da natureza não nos permitiu
Os homens nos impediram
O meu nome nos impediu.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Saga



          Creio que para ocorrer o nascimento ou o renascimento, seja ele físico ou espiritual, isto é, literal ou metafórico, se faz necessário a morte de algo ou alguém. Os seres vivos são mortais e nada é para sempre, não só pela razão carnal, mas pelas mudanças que são imprescindíveis. Revigorar a alma também é uma forma de morrer e reviver, não se morre só pela morte do organismo celular, da matéria, mas também pela morte de velhos pensamentos, costumes que já não nos servem mais, e inclusive das nossas dores. Todos de alguma forma sentiram e sentirão alguma dor, e isso pode acontecer de formas diferentes, podemos aprender com os erros ou acertos que acarretaram em dores, sim, nossos acertos também podem nos causar muitas dores.  Quando Newton Messias menciona “nas dores de cada estação” talvez ele esteja se referindo às diversas dores que enfrentamos em diversos momentos de nossas vidas. Vale ressaltar que esta idealização reforça o fato de que ao ressurgirmos já carregamos as dores, os sacrifícios de nosso passado.
O verso “que o fruto que surge após a beleza da flor, todo ele carrega na carne uma história de dor” ressalta a visão de quem vê de fora, a visão externa das coisas que, na verdade, não demostra a essência do que realmente se passa ou se passou, nem sequer se imagina que em um sorriso possa um dia algum tipo de choro ter existido. É possível notar que toda a satisfação da vida requer um processo de espera, afinal todos nós amadurecemos nossas mentes e nossas células. Amadurecer, envelhecer também tem o seu lado bom, que mesmo após a morte da aparência jovem, ainda vive a doçura que carregamos naquilo que nos move, ainda existe a beleza interior. Esse fato pode ser identificado no verso: “tu vês a beleza e a doçura que um fruto carrega?”, todos nós temos histórias para contar, e a superação de nossas mudanças se inicia ao semeá-las, pois tudo tem um tempo determinado pela natureza para existir e o ciclo da vida tem que acontecer independente das marcas que levamos. Assim como a “saga do fruto”, somos nós ao reencontrarmos o nosso eu.

domingo, 24 de junho de 2018

Duas doses e 1/3 de amor



Traga-me mais duas doses
Quero descobrir sabores e cores
Quem sabe assim eu ame por segundo
Um amor bandido amor cronometrado

Perco a razão, perco emoção
Entre minhas veias passam um amor desmedido
Daqueles de doer o corpo de doer o coração
Um amor calculista, melindroso

Tragam-me mais duas doses
Hoje eu quero amar
Quero ouvir novas vozes
              Quero ir onde for e sentir um terço de amor                     

Quero brindar meu sono
E dormir por engano
Mas como, se tudo ao inverso sou
Quero acordar pela manhã e saber com quem fiz amor

Quero decorar nomes
E saber as linhas dum corpo décor
Tragam-me mais duas doses
Quero sentir ao menos 1/3 de amor

Outra dose
De onde vem pra onde for
Só mais dois goles
Dois goles e um pouco de amor.


PS: Em meado de 2012.

O ter





- Espera, não vai voa agora. 

Preciso tanto ter você, mas não é o ter clichê. Não é o ter de posse nem o ter apaixonado. Não é o ter, aquele ter descompensado pra dizer que tem, pra chamar de meu ou minha. É o ter de sentir minha alma se reencontrando na sua, da sua na minha. É o ter de não saber explicar, de não saber o porquê você precisa ir, de você já está indo. Você não é um pedaço meu, mas sim como se fosse eu. Quero esse ter de cuidar de você e assim poder cuidar de mim, ser só um ser. É o ter de ter você por perto, ter sua presença aqui. O ter de se reencontrar, de se enxergar em você, de me rever. Sim, eu preciso que você fique. 
- Espera, não vai voa agora. 


Lado de dentro




         Aceitar quem você é? Sim, é um dos maiores desafios que podemos ter. Não se importar com que os outros irão pensar é mais que um clichê. Se aceitar, se amar. Por que é tão difícil? Ainda mais quando os anos se passam. Talvez porque há um universo inteiro dentro de você, um mundo que só você consegue enxergar, só você consegue sentir, assim como todos só sentem a si mesmo. E saber o que se sente é uma das maravilhas do mundo. Às vezes me parece ser inatingível, mas alcançar a plenitude de ser quem você é, é imensuravelmente melhor. Se policiar, muitas vezes soa como auto sabotar, e isso vai além de toda ética existente.

Não se reconhecer é desesperador. Se olhar e não encontrar quem você é ou quem você costumava ser, é profundamente confuso. Apenas perceber o que você se tornou é angustiante. Sim, porque você se tornou tudo que nunca pensou. A sua fisionomia te enganou. Nos últimos anos, arrancou os últimos traços de você, as últimas chances de se reconhecer. Os dias se passam e você refaz o seu pensamento e assim se refaz por inteiro, ao menos o inteiro do seu lado de dentro. Mas, você descobre que não é só conseguir se reconstruir, colar todos os cacos, mas você também precisa se manter assim e isso é o que determina se você se aceita ou não. Se você não está, mas se é feliz.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

VHS





Ai que saudade da sensação de colocar a fita para rodar, da preguiça de rebobiná-la à mão, de usar uma caneta para voltá-la ouvindo aquele barulhinho “trec trec” indescritível. Meus dedos coçam só de pensar em palpar o VHS e empurrá-lo na “máquina” que ocupava todo o espaço na estante.
Ai que saudade da máquina de escrever que imprimia em tempo real [risos], de brigar consigo, porque digitou a palavra “cazuza” errado ou no lugar errado rasurando as palavras “umas sobre as outras”, perdendo o papel ofício que terá que amassá-lo para pôr outro no lugar voltando a parte giratória à mão, e começar tudo novamente.
Ai que saudade, do telefone giratório, daquele cinza tradicional, de “queimar a foto”, do preto e branco, de escrever uma carta sem remetente, ou ao menos receber uma que não seja a fatura do cartão, daquela sensação de abrir uma correspondência escrita à mão, sentir o cheiro e ver os pingos na folha quase transparente, a tinta manchada, a foto revelada.
Ai que saudade do cheiro do álcool junto com o medo da avaliação bimestral, de levantar mesmo reclamando para ir tomar banho e simplesmente não poder se negar senão ia dormir com marca vermelha na pele. 
Ai que saudade de poder começar tudo novamente, [suspiros], de ser tão prático recomeçar, de voltar, de viver tudo outra vez como em uma fita VHS, de simplesmente poder voltar à mão. Era tudo mais simples e grande, até os móveis pareciam maiores, a casa então, era uma mansão.
Hoje, as coisas estão pequenas, estão saturadas, hoje é necessário comprar “outro novo”, porque o antigo estragou rápido demais. Hoje, as marcas não são mais na pele, mas na alma e não somem mais quando acordamos, ainda estão lá, e lá elas ficam sem poder rebobinar ou recomeçar.
Hoje, tem que compactar tudo, projetar tudo para caber tudo, a mesa é daquelas que levanta e desce rente a parede para não ocupar espaço, tudo tem que estar livre (livre demais), nem bidê tem mais, até o café na mesa não tem mais espaço, nada pode ser preenchido demais. Tudo tem que ser instantâneo até o macarrão, hoje, tem “fast food” e a comida tem que ser congelada feita de uma só vez para guardar em potes para semana toda, até os sentimentos parecem que são guardados em potes, e não mais em corações. Tudo que ocupe espaço de mais é perda de tempo, e perda de tempo ninguém mais pode ter.
As conversas em bares e restaurantes entre amigos ou casais são preenchidas por smartphones de todas as marcas, mas quase todo mundo só quer de uma.
Hoje, só hoje, não tem 120, nem 280 caracteres, hoje é ilimitado com borda recheada e sem filtro. Hoje, não tem WiFi, conversem entre vocês!